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Epílogo – em uma conversa filosófica perdida no tempo

Onde estamos? O relógio da História não marca o mesmo horário em todos os quadrantes. 

Como estamos? A fragmentação do indivíduo é parte da sua condição na modernidade.

Para onde vamos? Não há horizonte de futuro dentro do espaço de experiência. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim das dinâmicas de poder, exploração e dominação – ou seja, capitalismo, racismo e misoginia.

 

Conversa falada. Alguns elementos. Deixa falar… 

Há algo que nos atravessa, e é o impulso para libertação de onde e como estamos, e para construção do lugar para onde desejamos ir. Nós, negros (veja, esse é o interlocutor que vos fala; mas não significa que esteja falando apenas com pessoas negras. Na verdade, é bem o contrário: precisamos cada vez mais que pessoas não negras escutem o que as pessoas negras têm a dizer, e que não seja só sobre raça). Deixa escutar… 

Libertação… Libertação do quê? A quê? Por quê? Muito do que a gente não consegue explicar, a gente consegue viver e sentir. Há um movimento que segura todas as arestas, as dimensões. Paredes… Manuel Querino falava do “emparedado”. Mas as paredes não são apenas raciais, eles são erguidas em toda sorte de terrenos, espaços e profundidades. Bell Hooks falou do amor; Christian Dunker falou da lógica do condomínio. Pulou o muro… tentou, pelo menos. O racismo é o arame farpado que sangra a dignidade do negro. Que o machuca do lado de lá. Pessimismo? Ou crítica? Marcuse falou que há uma redução no espectro dimensional daquilo que se experimenta; Wilderson III vai além nessa experiência e conecta o Afro ao Pessimismo. Du Bois (ah, Du Bois…) cantou Cometa, mas antes destilou as canções que ajudaram a lidar com as dores das almas do povo negro. Que povo? Quais povos? É sobre qual marcador? Precisa ser marcador? Butler falou para olharmos os enquadramentos de vida, ou melhor, de morte (daqueles que não devem ser enlutados). Mbembe lembrou que quem não morre é feito de morto. Morte. O movimento é sobre morte. Poder, exploração, dominação. É sobre a morte. Deixa pensar… 

Há possibilidades de superar isso? Talvez. Hegel falou em suprassunção. Faz tempo. Fanon falou em construir um novo universal. Som… som ao fundo. Música. 

A saída é feita da impressão e da expressão, que não são só palavras. São gestos. E ritmos. São propostas e pensamentos. Prática, toque. Som. Sons. Mais gestos, e notas cantadas. Tentativa. O nome dessa superação é um movimento também. Um movimento de contratendência de tudo que está indo para a morte. Morte… Som, vida. Vida. Mingus trouxe o sentido. Sonny Rollins mostrou que há certas coisas. Curtis deu o tom naquela sequência de baixo da canção Think, e o Superfly ensinou naquela cena que um mergulho interno exige, inclusive, aquele baixo. Coltrane deu vida. A vida. Esse movimento de contratendência só pode acontecer em um impulso criativo para a libertação. Porque é a libertação que se torna vida. 

Deixa criar… 

Baldwin entendeu isso. Tem muita vida circunscrita em um espaço sem impulso, sem criatividade. Não cresce vida, vira morte. Cultiva morte… silêncios. 

Som. Vida. Isso me remete ao jazz… 

O nome desse movimento é JazzporaOi? 

Som. Vida. Libertação. Impulso. Criatividade.  

Me permita organizar um pouco do pensamento. Vai ser um parágrafo de perspectivas e definições. De quem? Nossas. Deixa definir… 

Jazzpora é um movimento contratendencial de construção de libertação. Ele lida com música, sons, que refletem a vida. Mas essa música é a junção de dois eixos: experiência e improviso. A excelência da expertise, e a abertura do imprevisto. Isso leva à criatividade. Um movimento contratendencial por criar a partir de um repertório consistente, mas que se dissipa e se transforma conforme vai sendo desenvolvido. 

Esse movimento está inserido em um espaço e tempo específicos, nos quais a luta pela libertação se faz necessária. Vamos chamar de diáspora. Diáspora não é apenas sobre os corpos que se lançam e são lançados, mas também sobre os espaços que são construídos a partir da existência (ou insistência em existir) dessas vidas que não querem morrer. Contramovimento. O jazz é isso, fez isso, e se multiplica nas vozes e perspectivas da diáspora. Rap, soul, samba, slam. Voz, som. Excelência, repertório, tudo junto mobilizando uma junção da libertação criativa com um movimento contratendencial de construção. 

O movimento começou, inspira, integra. Segue. Som aberto para a vida.  

Deixa cantar: 

“That’s my way and I go, 

Esse é meu caminho, nele eu vou 

Eu gosto de pensar que a luz do sol 

Vai iluminar o meu amanhecer 

Mas se, na manhã, o sol não surgir 

Por trás das nuvens cinza, tudo vai mudar 

A nuvem passará e o tempo vai abrir 

A luz de um novo dia sempre vai estar 

Pra clarear você, pra iluminar você 

Pra proteger, pra inspirar 

E alimentar você” 

 

PS: Para terminar, não sei se é possível assistir, mas esse vídeo fala sobre isso. Criatividade, escuta, ampliação. Edi Rock fala sobre That’s My Way com Seu Jorge!  

 

Tulio Custódio é sociólogo e curador de conhecimento na Inesplorato.