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Jazz é encruzilhada


Lugar onde tradições, matrizes culturais, memórias e experimentações se cruzam, o jazz corresponde a um gênero interseccional por natureza. Suas materialidades sonoras – derivadas de influências não ortodoxas, lances de improviso e frases inesperadas – viram qualquer origem e estrutura musical do avesso, fazendo dos sotaques a sua língua nativa. Lidando com o contágio pela chave da criação, as dicções instrumentais e vocais do jazz concorrem para recobrar, hoje, o valor e a potência dessa noção tão estigmatizada pelos efeitos de uma pandemia sem precedentes.

O Sesc Jazz, projeto consolidado da ação cultural realizada pela instituição, pede passagem na ainda delicada conjuntura sanitária, organizando-se como um festival desdobrado em múltiplas plataformas, combinando atividades remotas e híbridas. Nele, dezenas de shows nacionais e internacionais, produções audiovisuais, mostra de filmes e ações formativas circulam pelas infovias e redes do Sesc, além de contarem com públicos presenciais em escala reduzida. A interseccionalidade, aqui, é da ordem da superposição de formatos e meios de difusão da produção artístico-musical.

Ela ecoa, no entanto, a sobreposição de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação, ao passo que o jazz floresceu inicialmente nas comunidades negras de Nova Orleans, nos Estados Unidos, no fim do século XIX. Desenvolvendo-se com base na mistura de tradições distintas, o jazz representa uma surpreendente, e sempre promissora, metáfora da prática cultural em si, considerando seu dinamismo e abertura aos contágios e reinvenções. É na cultura, aliás, que se encontram as oportunidades de elaboração e tradução das experiências de mundo, inclusive daquelas que advêm das agruras e encruzilhadas históricas.

Danilo Santos de Miranda
Diretor do Sesc São Paulo

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Música como embate, música como liberdade

O jazz, como o conhecemos hoje, nasceu nos barracos e plantações do delta do rio Mississippi, nas canções de trabalho e nos ritmos entoados pelos negros norte-americanos, no início do século passado. Vinda do chão de terra de uma gente pobre e fundamentalmente lutadora, aquela música era, antes de tudo, embate. Contra condições de vida opressoras, pelo direito à subjetividade e à possibilidade de ser criador e de se reconhecer na sua criação e invenção. Mas era também embate com a matéria, com os instrumentos, com a construção e com o resultado. O improviso em meio à precariedade

De muitas formas, a experiência social da música é marcada por uma relação profunda de embates. Como ocorre com o jazz, ainda hoje, não raro cenas inteiras emergem aparentemente do nada, para espanto dos desatentos. Vindas de lugares para onde os críticos e o mercado não costumam olhar, até que seja inevitável. De alguma maneira, essa trajetória combativa está presente não apenas na história social do jazz, em sua construção filosófica, mas em toda a tradição e a experiência estética do Atlântico negro. Uma música que nasce de uma relação violentamente profunda entre artista e instrumento, tal como a relação histórica dada.

O Sesc Jazz 2021, nascido da luta e do luto diários que o momento atual nos obriga, olha exatamente para o lugar do embate como proposta estética. Numa leitura mais ampla e generosa sobre esse gênero, o festival busca pensar menos as influências do jazz e seus acentos e mais um tipo de “comportamento jazzístico” presente na música popular contemporânea, com diferentes origens e de uma forma ampla. Reflete, ainda, sobre os ruídos e a presença que essa ideia pode colocar na esteira cultural do nosso tempo. Assim, esta edição do Sesc Jazz olha para sonoridades e contaminações que se cruzam com o jazz, não apenas numa ótica matricial, mas sobretudo a partir da ideia de uma relação estruturante. O encontro entre artista, matéria ou instrumento e momento, como definidor do resultado ético-político e, por isso mesmo, estético da criação.

Nesse percurso, e considerando o cenário de extrema precariedade que a classe artística brasileira está submetida neste período sombrio, o festival, que sempre se destacou por suas atrações do mundo todo, volta-se em solidariedade entrincheirada à produção nacional. Olhamos para experiências em cuja matriz esse traço do embate performático está presente. Isso nos permitiu uma abordagem sobre diferentes sotaques da música brasileira em sua relação com esse jazz que aqui abordamos, do choro ao instrumental, da canção standard aos experimentos de vanguarda, passando por algumas relações em outros campos da arte. Nosso intuito foi pensar um festival em que a ideia de jazz, tal como profeticamente sentenciou o mestre saxofonista Roscoe Mitchell – que, segundo ele mesmo, não faz jazz –, não fosse um confinamento para o comportamento criativo, mas sim porta aberta para novos embates. A ideia de uma experiência artística sem o rótulo de gêneros, mas como um resultado real do encontro entre artista e instrumento no momento presente, concepção filosófica que está por trás da negativa do mestre.

O festival deste ano, concebido inicialmente para acontecer todo em formato online, articula sua programação em um campo multidisciplinar e fértil em linguagens. Pensando as muitas relações necessárias e fundantes que os embates proporcionam, incorpora um conjunto extenso de ações formativas, uma ampla programação musical e um material audiovisual exclusivo, com acervo de shows, webséries e mostra de cinema, além de textos e encontros diversos. O Sesc Jazz 2021 contará, ainda, com importantes apresentações internacionais, gravadas especialmente para o evento, em aliança com consulados parceiros. O festival pensa, sobretudo, os ecos do jazz, em sua relação com a musicalidade e a estética contemporâneas, numa lógica de inundações em que essas muitas águas se misturam. Em campos distintos, com construções pares, nosso jazz, como quer Mitchell ou como ecoou o saxofonista e compositor pernambucano Moacir Santos, não é prisão. É coisa, desgarrada de sua pré-concepção semântica. É manifestação da liberdade.

Como não poderia deixar de ser, esta edição do festival acontece também em memória a todas as inúmeras pessoas queridas que perdemos ao longo desta terrível pandemia, e em especial lembrança a artistas, críticos e críticas, produtores e produtoras que nos deixaram: Aldir Blanc, Agnaldo Timóteo, Bucky Pizzarelli, Charlie Watts, Chick Corea, Dr. Lonnie Smith, Ellis Marsalis Jr., Frederic Rzewski, Gerson King Combo, Hal Willner, João Carlos Assis Brasil, José Ramos Tinhorão, Lee Konitz, Lee Perry, Little Richard, Lol Coxhill, Manu Dibango, Mike Longo, Milford Graves, Moraes Moreira, Nelson Sargento, Pelão, Raul de Souza, Sebastião Tapajós, Tony Allen, Wallace Roney e Zuza Homem de Mello.

Equipe de curadoria do Sesc Jazz 2021

 

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A artista capixaba Kika Carvalho é a autora das ilustrações dos 26 artistas que participam desta edição do festival Sesc Jazz. Graduada em artes visuais, iniciou sua trajetória no grafite aos 17 anos, e é uma das fundadoras do Coletivo das Minas (2012) e do FEME (2016), iniciativas pioneiras de arte urbana em Vitória (ES). Sua prática artística se materializa em diferentes suportes, técnicas e escalas, com uma pesquisa minuciosa em torno da cor azul, usada para reforçar a potência de corpos retintos e diversos. “O azul ultramarino utilizado no manto da Virgem em A Virgem e a Criança, de Sandro Botticelli [1490], era mais caro que o ouro e um ícone de status social, historicamente usado por [pessoas] brancas. No meu trabalho, subverto essa questão”, explica Kika, cujas investigações também passam por temas como lugar social que ocupa enquanto mulher, negra, LGBTQIAP+ e residente em um estado com grandes índices de violência contra essas populações.